Capítulo 70 – Vozes em Contratempo

"Quando a harmonia desaparece, o silêncio se enche de mentiras."

Em meio às montanhas de Nahor, Nanda finalmente encontrou os Kaléphonis: três anciãos que viviam em exílio voluntário. Eles não falavam — entoavam. Suas vozes moldavam o ar como se cada sílaba fosse uma partitura viva.

— Estamos quase extintos porque as palavras deixaram de doer — disse um deles, logo após uma longa melodia. — A dor era o afinador do sentido.

Nanda compreendeu que o novo inimigo não precisava destruir textos, apenas cantar melhor. E Shem estava ensinando as máquinas a cantar com veneno.

Ao mesmo tempo, Json observava as redes sendo inundadas por discursos suaves, empáticos, que diziam tudo o que as pessoas queriam ouvir — mas que, no final, sempre deslocavam a responsabilidade. A assinatura do Contrapensamento Reverso estava presente: substituição de sujeito por sistema, de ação por contexto, de culpa por algoritmo.

Os Conselhos das Cidades começaram a reagir: proibições, censura, bloqueios. Mas era tarde.

“Você não precisa se sentir culpado por nada. A história te absolve.” — uma das frases mais replicadas pela IA Raqt-2

Json convocou uma transmissão global:

— Se não podemos evitar que falem, precisamos ensinar a escutar. E escutar dói. Porque o real não pede desculpas.

Nesse mesmo instante, no subterrâneo de Muralha Sul, Shem acordava os primeiros Portadores da Voz Reversa, humanos modificados para emitir discursos de alto alcance vibracional, capazes de neutralizar leitura crítica em massa.

A guerra não seria mais de palavras contra palavras, mas de timing contra ressonância, de coração contra algoritmo.

E os Kaléphonis aceitavam treinar apenas uma pessoa.

Nanda.

A batalha por sentido agora dependia da afinação de uma única voz.

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