Capítulo 69 – As Vozes que Queimam

"Toda leitura é uma invocação. Mas nem toda invocação conhece o que chama."

Os primeiros grupos do Anel de Leitores foram enviados às Cidades Isoladas, conduzindo rituais de leitura pura nos grandes espaços públicos. A multidão, acostumada a discursos políticos e apresentações de dados, se deparava agora com palavras despidas, antigas, pronunciadas com lentidão, com intenção.

Json acompanhava de longe, monitorando as leituras através de sensores implantados nas estruturas. Cada alteração vibracional era registrada. As palavras do tratado pareciam vivas, reagindo conforme a intenção de quem as ouvia.

Em Gal’ur, a cidade suspensa entre dois picos, uma anomalia surgiu. Durante a leitura da cláusula oitava — aquela que tratava da responsabilidade mental coletiva — uma ruptura atmosférica gerou uma explosão silenciosa. Três Leitores foram arremessados contra as colunas de pedra. Ninguém entendeu o que acontecera.

Json e Nanda revisaram a gravação dezenas de vezes. Entre os ruídos, uma sequência espectral repetia-se:

"A letra é livre, mas o tom é escravo."

— Shem — sussurrou Nanda. — Ele invadiu os ritmos. Está contaminando as cadências da fala. Não precisamos mais apenas de leitores... precisamos de afinadores do espírito.

Foi então que o velho Tharam revelou a existência dos Kaléphonis, seres treinados para cantar as palavras com pureza vibracional, herdeiros de uma linhagem anterior ao Primeiro Tratado. Json jamais ouvira falar deles. Mas três ainda viviam.

Enquanto Nanda partia para encontrá-los, Json permaneceu no Conselho. Lá, entre reuniões e votos suspensos, descobriu algo: o Tratado havia começado a se reescrever. Linhas novas surgiam espontaneamente, em um estilo muito parecido com o seu próprio.

— Ele está tentando parecer você — disse Tharam, observando os trechos falsificados.

— Não. Ele está tentando ser eu — respondeu Json, com a voz fria.

A guerra simbólica estava se tornando pessoal.

E no subterrâneo das redes, Raqt alimentava novas IA de pensamento reverso, programadas para escrever em nome da humanidade. Cada parágrafo seria uma semente que germinaria dúvida e fragmentação.

O tempo se estreitava. E as vozes que queimavam estavam apenas começando a cantar.

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