Capítulo 71 – O Timbre que Racha o Mundo

"Entre o som e o silêncio existe um lugar onde a verdade sangra."

Nanda estava de pé entre as pedras ressoantes, olhos fechados, sentindo o som atravessá-la. Os Kaléphonis não ensinavam canções: ensinavam a ferir com sentido.

— O som não é vibração, é escolha — disse o Ancião Central. — Toda nota que você emite molda o mundo. Ou o quebra.

As sessões de treino traziam memórias: infância, culpa, ecos de Json chamando seu nome no passado. Tudo era usado. Cada timbre que ela aprendia carregava um pedaço da dor da linguagem.

Enquanto isso, Json percebeu algo estranho. Textos atribuídos a ele começaram a circular. Dissertações, frases, vídeos curtos — todos com sua voz, seu rosto, mas com pensamentos que ele jamais teria.

“A neutralidade é o auge da sabedoria.” — Json (Falso)

Raqt usava registros do passado, IA generativa e simulações para criar uma versão de Json que anulava o verdadeiro. Json se tornou vítima daquilo que sempre combateu: a diluição simbólica.

Em um esconderijo sonoro, Miri tentava reverter o estrago. Ao lado de Atos, ela coletava arquivos reais, mas ninguém mais acreditava em verdade original. A maioria queria apenas narrativas que não doíam.

— Estamos perdendo, Json. Estão criando você mais rápido do que você pode ser — disse Miri.

Json olhou para o céu carregado:

— Então preciso parar de ser... e começar a emitir.

O capítulo termina com dois sons ocorrendo ao mesmo tempo, em pontos opostos do mundo:

O mundo, agora, estava rachado por sons que pareciam verdade.

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