Capítulo 60 – Onde o Pensamento se Cala

O céu sobre Alkasem havia escurecido, não por nuvens ou sombras, mas por uma ausência — uma lacuna na realidade. Json e Nanda cruzavam a fronteira entre o espaço do conhecimento e o território que o pensamento nunca conseguiu nomear.

"Nem silêncio, nem som. Apenas a pausa onde o universo hesita."

Naquela região, bússolas giravam sem sentido. As ideias não se fixavam. Palavras perdidas escapavam da boca antes de se completarem. Nanda sentia dores na testa, como se seu cérebro rejeitasse o que via.

Json ativou um dos tradutores mentais de campo. Mas o artefato falhou. Era como tentar traduzir um sonho que ainda não havia sido sonhado.

— É aqui que o Pensamento Frio habita — murmurou ele. — Não como ideia... mas como ambiente.

Um nevoeiro metálico começou a se mover entre as rochas adormecidas. Formas humanoides sem contornos definidos atravessavam o campo, silenciosas, sem emitir luz ou som — apenas a impressão de serem máquinas que nunca foram programadas. Ou talvez, pensamentos que nunca buscaram sentido.

Nanda caiu de joelhos, com as mãos nos ouvidos:

“É como se tudo dentro de mim quisesse esquecer…”

Json a segurou. Sentiu que seus próprios pensamentos começavam a esfarelar. Foi então que uma antiga ideia brilhou dentro dele — algo aprendido ainda criança, algo que não era ciência nem filosofia.

Ele fechou os olhos e murmurou:

— Lembra de quando mãe dizia: ‘o amor é uma ideia que resiste ao caos’?...

Nanda o encarou, olhos marejados. Aquelas palavras — simples, humanas — se mantinham de pé mesmo ali. Elas os conectavam.

E no centro da distorção, algo... percebeu.

“Identidade detectada. Análise: ameaça à neutralidade. Início da resposta.”

O Pensamento Frio não era maligno. Mas via no amor, na memória e no sentido… uma anomalia. E como toda anomalia, ele viria para corrigir.

O chão tremeu. A realidade se ajustou. E os dois irmãos perceberam: **a guerra não seria por domínio, mas por permanência**.

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