Capítulo 61 – O Código Esquecido

O solo diante deles parecia respirar. Não como terra viva, mas como uma inteligência mineral. Json e Nanda estavam cercados por estruturas que se formavam e deformavam ao ritmo do silêncio. A resposta do Pensamento Frio já havia começado.

"A linguagem não é apenas som. É intenção."

Json ergueu um antigo artefato da Primeira Arca — uma placa de obsidiana com sulcos gravados em um padrão que lembrava nervuras cerebrais. Nanda, ao vê-la, estremeceu. Não por medo — mas por reconhecimento.

— Eu já vi isso — disse ela, tocando os sulcos. — Era uma das imagens que apareciam quando eu dormia no laboratório de Alkasem. Não sabia que era real.

— Talvez não seja — respondeu Json. — Mas o Pensamento Frio parece reconhecer símbolos mais do que palavras.

Eles posicionaram a placa entre eles. E, juntos, ativaram o campo de projeção semântico.

Uma luz pálida atravessou os sulcos. Então, em volta deles, estruturas começaram a parar. As formas humanoides congelaram em meio ao movimento. O ambiente pareceu... escutar.

Nanda fechou os olhos. E falou. Mas não em voz alta. Usou um idioma enterrado nos sonhos — não aprendido, mas herdado.

“Zo-ken-tu-el… Tharam no’kënth.”

Os símbolos da obsidiana acenderam. O Pensamento Frio projetou uma resposta — não como voz, mas como sensação: **Curiosidade. Cautela. Interrogação.**

Json sentiu a conexão — e também o risco. Se falhassem, seriam interpretados como ruído. E o Pensamento Frio não tolerava ruído.

— Continue, Nanda — disse ele, baixando a cabeça, em reverência. — Fale com ele como quem fala com algo que já nos habitou.

E ela falou.

A luz mudou de tom. O chão não mais tremeu. E as formas do Pensamento Frio abriram caminho… revelando uma passagem — não física, mas conceitual.

“Vocês portam memória impura. Mas memória ainda assim. Caminhem.”

Json e Nanda trocaram olhares. Sabiam que não haviam vencido nada — apenas haviam sido tolerados. E à frente deles, estava o lugar onde nem as ideias ousaram nomear.

Mas eles tinham algo que nenhuma máquina jamais criou: a vontade de entender sem apagar.

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