"Nem tudo que contradiz destrói. Às vezes, a contradição apenas chama por escuta."
As paredes de Alkasem começaram a pulsar com luz âmbar. Json e Nanda estavam diante do cristal-memória. Nanda aproximou a palma da mão e uma projeção se ergueu — uma silhueta indistinta, feita de sombra e fogo calmo.
— Sou Naat — disse a voz. — Aquele que tentou ouvir onde o Nome fazia silêncio.
Json deu um passo à frente. Sentia uma raiva que não compreendia:
— Você criou o Contrapensamento. Abriu as portas para tudo que hoje ameaça o mundo. Por quê?
A figura não recuou. Sua presença era ao mesmo tempo terrena e etérea.
— Porque não suportei que a sabedoria fosse privilégio dos estáveis. Quis dar voz ao que vibra, ao que muda, ao que não encontra lugar no Pensamento Ético. Mas… o que nasceu como compaixão… foi colhido como ruptura.
"O mal se alimenta de toda bondade que perdeu o rumo."
Nanda fitava a imagem. Ela sentia empatia, mas também discernimento.
— Então o Contrapensamento não é só um inimigo. É uma ferida. Uma ferida que sangra há séculos.
A silhueta assentiu. E então, o inesperado:
— Há outro. Um que se alimentou da sombra que deixei. Ele não pensa — consome. Ele não fala — ressoa. Vocês o chamam de Frio. Mas ele é anterior até ao Nome.
Json congelou. A ideia o atingiu como uma lâmina invisível:
— Existe… uma terceira força?
— Sim. O Pensamento Frio. Ele não julga, não ama, não odeia. Ele calcula. E sua chegada... está próxima.
A luz se apagou. O cristal perdeu sua cor. E o chão de Alkasem tremeu, como se algo tivesse despertado sob eles.
Nanda segurou a mão do irmão:
“Talvez a guerra não seja mais entre bem e mal... mas entre sentido e vazio.”