"A origem do mal não é a mentira, mas a distorção de uma verdade incompleta."
A nave seguiu pelas camadas atmosféricas até a fronteira esquecida entre os territórios da Primeira Escola e os Vales dos Pensamentos Rejeitados. Json e Nanda estavam lado a lado, o silêncio entre eles não era desconfortável — era reverente. Cada um carregava o peso de saber demais.
— O que você viu... quando desapareceu? — Json finalmente perguntou.
Nanda respirou fundo. As palavras que usaria não poderiam ser banais. Precisavam ser pensadas antes de nascer.
— Vi o início do Contrapensamento. E descobri que ele nasceu... como uma tentativa de salvação. Não era maligno no começo. Era uma reação à dor de um Pensador que não suportou o silêncio divino.
Json arregalou os olhos:
— Um Pensador... que ousou inverter o Nome?
— Não. Um Pensador que quis entender por que o Nome existia. Ele acreditava que se encontrasse o antônimo sagrado, poderia libertar os seres do fardo da interpretação.
“O Contrapensamento nasceu como pergunta, não como negação.”
A nave pousou no platô de Alkasem, onde ruínas da Escola Perene se espalhavam como cicatrizes. Era ali que repousavam os primeiros registros da linguagem sem forma — anterior até ao Pensamento Ético.
Ao entrarem, Nanda sussurrou:
— Aqui ele foi concebido. Aqui o Pensador renegado descobriu que podia conjurar significados opostos... não com palavras, mas com intenção.
Um cristal em forma de delta vibrava no centro do salão. Json se aproximou e viu que ele registrava memórias... mas não de falas, e sim de silêncios.
— Ele nunca quis destruir. Quis responder. Mas a ausência de resposta o transformou — Nanda completou. — E assim nasceu o Contrapensamento.
Era chegada a hora de confrontar não o vilão... mas a origem. E talvez, resgatar o que havia de verdadeiro antes da corrupção.