"Toda palavra esquecida busca quem a pronunciou primeiro."
Json piscou várias vezes. A presença que acabara de interromper o colapso do templo irradiava uma força tranquila, mas incontestável. Os símbolos no ar se dissiparam como poeira diante do vento antigo.
— Nanda...? — sussurrou ele, incapaz de acreditar. — Mas você...
— Morri — ela respondeu, com um meio sorriso triste. — Pelo menos para a ideia que vocês tinham de mim. Mas o Pensamento não permite que portadores do Nome desapareçam tão facilmente.
Aruon olhava entre os dois sem saber se devia se ajoelhar, fugir ou agradecer. A presença de Nanda era como uma dobra na realidade: tudo ao redor parecia contido dentro de seu olhar.
— Você foi levada... durante o colapso do Pensamento Ético... — Json dizia, em fragmentos.
— Eu fui escolhida. E protegida. Treinada na linguagem que antecede a linguagem. Me tornei uma Guardiã do Nome. E agora... voltei porque você o chamou.
"Aquele que chama o Nome, mesmo sem dizê-lo, também se torna parte dele."
Ela caminhou até o cubo, ainda pulsando fracamente. Com um gesto, selou-o parcialmente, mas deixou uma fresta — uma decisão simbólica.
— Você ainda precisa vê-lo. Mas com proteção. Com equilíbrio. Porque o Nome não é um código... é um espelho. E se você não souber quem é... verá o que mais teme.
Json ainda tentava processar. As perguntas se acumulavam como tempestade: onde ela esteve? Por que não o procurou? Por que agora? Mas antes que falasse, Nanda se adiantou:
— A guerra se aproxima. E ela não será feita com armas ou argumentos. Será feita com narrativas e interpretações. Aquele que conseguir moldar o sentido original... controlará a forma.
Um silêncio denso pairou. Nanda o quebrou com algo inesperado:
— O Contrapensamento quer o Nome porque acredita que pode inverter sua origem. Reescrever a origem do Pensamento.
Json se sentou. Sentia-se como alguém que acabara de nascer de novo, mas já trazia cicatrizes de uma vida que ainda nem viveu.
— O que eu faço? — perguntou ele, sem armadura, sem certezas.
— Você anda comigo — disse Nanda. — Até o fim. Porque só juntos podemos atravessar o que está vindo. Só juntos podemos impedir que o Nome seja corrompido em sua essência.
E assim começou uma nova jornada. Não para destruir o Contrapensamento, mas para compreender sua origem. E talvez... reconciliar o que um dia foi um só Pensamento.