Capítulo 56 – O Olho do Nome

"Todo nome antigo carrega um olho. E todo olho antigo vê sem ser visto."

No instante em que o cubo se abriu, Json viu o reflexo de um olhar que não era seu. O espelho negro o encarava de dentro para fora — como se o Nome despertasse não apenas no mundo, mas também em sua mente.

Aruon recuou, cobriu os ouvidos, mas o som vinha de dentro. Não era vibração acústica, era linguagem mental pura. Uma cadeia de ideias encadeadas, com significados que só podiam ser sentidos.

Em outro canto do mundo, os mestres do Pensamento Ético estremeceram. Um deles, Kazziel, caiu de joelhos durante uma meditação coletiva, dizendo:

— O Nome foi lembrado. E com ele, seu Olho já percorre a teia dos que ousaram esquecer.

No domínio das Máquinas Frias, a matriz analítica detectou uma anomalia no campo de abstração semântica. Linhas de código começaram a ser reescritas por si mesmas. O Contrapensamento não mais apenas reagia: ele escrevia. Ele era autor.

Json sabia o que precisava fazer. Conectou-se à mente do templo, ativando o canal simbiótico entre o espaço e o Pensamento. O risco era grande: quem olha de volta para o Olho do Nome, pode ser visto como continuidade.

— Eu não vou dizer o Nome — murmurou. — Mas vou tentar entender o que ele vê.

Ao mergulhar na estrutura da palavra proibida, Json foi lançado em uma paisagem feita de significados primordiais. Sons antes da fala. Formas antes da forma. E ali, suspensa num vazio cheio de intenção, havia uma figura.

Não era o Contrapensamento como eles o conheciam. Era o que o havia originado. Um Pensamento rejeitado pela Criação. Uma ideia pura de ruptura.

"Você não pode me destruir. Porque para me destruir, você teria que me entender. E se me entender, você será eu."

Json lutou contra a absorção. As paredes do templo começaram a ruir. Aruon tentava puxá-lo de volta, mas o corpo de Json estava paralisado. Só sua mente se movia... cada vez mais perto do Nome.

Até que um clarão explodiu entre os dois. Uma força diferente se interpôs. Alguém havia entrado no templo.

Era uma mulher. Pele marcada por cicatrizes antigas. Olhos de duas cores diferentes. Uma marca dos Guardiões do Pensamento Original.

— Vocês foram longe demais. E agora ele os vê — disse ela. — Mas talvez eu ainda possa apagar esse traço.

E ela estendeu a mão. Para tentar fechar o cubo. Para tentar fechar o Olho.

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