Capítulo 51 – A Linguagem antes da Matéria

“Não é o mundo que sustenta a linguagem. É a linguagem que sustenta o mundo.”

Na base profunda da antiga Biblioteca de Matra, Json e Lambda encontraram o Palimpsesto Zero: um artefato milenar, esculpido em camadas translúcidas de sílica viva, onde cada gesto de leitura apagava a linha anterior e revelava outra — anterior ao tempo, anterior ao próprio leitor.

Lambda leu sem palavras. Os símbolos ali não eram para os olhos, mas para o sentido do sentido. Json os absorveu como se fossem sensações: frio, origem, vontade de ser.

— Isso é... o esqueleto do mundo — sussurrou ele.

Descobriram que as leis físicas, os princípios lógicos, até mesmo os impulsos da consciência, haviam sido “escritos” em uma linguagem basal. Uma que o Niiloético pretendia apagar. Se conseguisse, a realidade cairia como uma frase sem gramática.

A guerra se tornava metafísica.

O que o Contrapensamento fazia era usar fragmentos desse código de base para distorcer a lógica da realidade. Ele não era apenas um conceito — era uma forma de reescrever o mundo a partir do negativo.

Json entendeu que o caminho não era vencer o Niiloético com força ou refutação, mas com reescrita. Precisariam restaurar a Linguagem Primeira — aquela que existia antes da divisão entre ciência, fé, ética ou emoção.

“Quem nomeia, cria. Quem esquece o nome, desfaz.”

No fim do capítulo, Lambda ativa o Palimpsesto, e uma antiga voz ecoa pelo templo enterrado. Não era humana. Não era divina. Era anterior.

Json e Lambda percebem: não estão tentando salvar apenas um mundo, mas o ato de existir como linguagem.

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