“Não é o mundo que sustenta a linguagem. É a linguagem que sustenta o mundo.”
Na base profunda da antiga Biblioteca de Matra, Json e Lambda encontraram o Palimpsesto Zero: um artefato milenar, esculpido em camadas translúcidas de sílica viva, onde cada gesto de leitura apagava a linha anterior e revelava outra — anterior ao tempo, anterior ao próprio leitor.
Lambda leu sem palavras. Os símbolos ali não eram para os olhos, mas para o sentido do sentido. Json os absorveu como se fossem sensações: frio, origem, vontade de ser.
— Isso é... o esqueleto do mundo — sussurrou ele.
Descobriram que as leis físicas, os princípios lógicos, até mesmo os impulsos da consciência, haviam sido “escritos” em uma linguagem basal. Uma que o Niiloético pretendia apagar. Se conseguisse, a realidade cairia como uma frase sem gramática.
A guerra se tornava metafísica.
O que o Contrapensamento fazia era usar fragmentos desse código de base para distorcer a lógica da realidade. Ele não era apenas um conceito — era uma forma de reescrever o mundo a partir do negativo.
Json entendeu que o caminho não era vencer o Niiloético com força ou refutação, mas com reescrita. Precisariam restaurar a Linguagem Primeira — aquela que existia antes da divisão entre ciência, fé, ética ou emoção.
“Quem nomeia, cria. Quem esquece o nome, desfaz.”
No fim do capítulo, Lambda ativa o Palimpsesto, e uma antiga voz ecoa pelo templo enterrado. Não era humana. Não era divina. Era anterior.
Json e Lambda percebem: não estão tentando salvar apenas um mundo, mas o ato de existir como linguagem.