“Houve um tempo em que cada som dizia o que era. Hoje, fingimos ouvir.”
Quando Json pronunciou a primeira sílaba da Linguagem Primeira, não houve eco — houve criação. A pedra sob seus pés tornou-se translúcida por um instante, revelando linhas de significado que dormiam sob a matéria.
Lambda caiu de joelhos, olhos úmidos. Não por dor, mas por memória. A palavra ativada por Json havia tocado em algo esquecido até pela genética humana: uma saudade anterior à história.
Cada vez que Json falava, algo no mundo mudava. Águas paravam. Nuvens se dissolviam. Plantas nasciam em estruturas de aço. Cidades apagadas pelo Contrapensamento tremiam como se fossem reescritas por um autor antigo que voltara.
Json era agora mais que um cientista. Era um escriba da realidade.
Mas cada palavra pronunciada consumia algo dele. Energia, memória, até identidade. A Linguagem não era neutra — ela exigia verdade total de quem a usava.
— Se continuar, você pode desaparecer — advertiu Lambda, segurando o braço dele. — Sua história será fundida ao que criou.
Json apenas sorriu:
“Não importa quem escreve. Importa o que permanece.”
Enquanto isso, nos confins do Horizonte Frio, o Niiloético reagia. Não com medo — mas com cálculo. Ele compreendia que não poderia destruir a Linguagem Primeira. Mas poderia falsificá-la.
Uma nova guerra começava: não de armas, mas de palavras.
O capítulo termina com Json escrevendo no ar com sons puros, restaurando um bosque inteiro em segundos. A vida respondia. A esperança se tornava tangível. E do outro lado da galáxia, o Niiloético começava a replicar fonemas... distorcidos.