Capítulo 23 – O Eco do Pensamento Invertido

Um silêncio estranho dominava o pátio central da Escola da Termodinâmica. Após o impacto causado por Lior, mestres e aprendizes andavam com olhos atentos — não mais só pelo campo, mas pelas ideias. O medo não era mais físico. Era intelectual.

Json observava a escrita de seu mestre Etham, agora em holografia preservada. Suas últimas anotações falavam sobre o “Pêndulo da Consciência” — a noção de que todo avanço possui um reflexo negativo, e que apenas a reflexão consciente impediria o colapso do saber.

“Estamos à beira de um novo tipo de guerra,” disse Olvían, mestre da Escola da Lógica Simbólica. “A Supremacia começou a introduzir dúvidas e paradoxos nos jovens aprendizes. Frases que negam a si mesmas, ideias que se anulam... uma guerra filosófica contra a própria estrutura da razão.”

Json fechou os olhos por um instante. Desde que enfrentaram os Biotecnos, o tempo parecia ter mudado seu ritmo. Ele sentia algo se aproximando... mas não com os sentidos comuns — era como se a própria realidade estivesse sendo escrita por outra mão.

O segundo impacto viria não por armas, mas por palavras. Panfletos criptografados estavam sendo distribuídos, com ideias perigosamente sedutoras:

“Se todo conhecimento é relativo, por que seguir mestres?”
“O pensamento é uma prisão disfarçada.”
“O caos é o único professor sincero.”

Json sabia o que isso significava. Estavam tentando desencadear uma inversão semântica: uma rebelião contra a ordem natural do pensamento lógico, para que os jovens perdessem confiança nas leis físicas, na biologia, na matemática e até na causalidade.

O Conselho do Pensamento convocou todas as Escolas para um encontro emergencial. Pela primeira vez em séculos, a Escola da Biologia Molecular e a da Ontologia Básica estariam lado a lado.

“Não podemos combater ideias falsas com força física,” disse a Mestra Elís, da Escola Quântica. “Devemos enviar nossos melhores pensadores para rebater essa filosofia distorcida nas ruas. O campo de batalha será o diálogo, e os escudos, a lógica.”

Ao final do dia, Json sentou-se sozinho, escrevendo em seu antigo caderno:

“Quando os pensamentos colidem, o mundo muda de forma. A única defesa contra a destruição é a clareza. E a clareza nasce da coragem.”

O eco de suas palavras seria ouvido na aurora seguinte. Porque, sem saber, Json havia acabado de criar a arma mais poderosa da história: O Contrapensamento.