Capítulo 24 – A Fenda no Pensamento

A brisa soprava sobre os telhados da Escola da Dinâmica, mas era um vento diferente — não de movimento físico, mas de mudança ideológica. Dentro da antiga biblioteca, cadeiras viradas e quadros riscados contavam o que ninguém ousava dizer em voz alta: o pensamento estava se fragmentando.

Json e Thalia entraram com cautela. Uma parte do acervo havia desaparecido — tratados clássicos de inércia, conservação de energia e campos gravitacionais. Em seu lugar, rabiscos confusos e fórmulas invertidas enchiam as paredes.

“Eles estão tentando refutar a realidade,” murmurou Thalia. “Olha isso: uma fórmula que diz que a força depende da dúvida, não da massa.”

Um som ecoou. De trás da estante quebrada surgiu Daryel — um dos estudantes mais promissores da escola. Seus olhos estavam escurecidos por noites sem sono e pensamentos repetidos. Atrás dele, outros cinco alunos o seguiam, usando mantos cinzentos com símbolos distorcidos das antigas escolas.

“Json,” disse Daryel, com a voz firme e fria. “Chegou a hora de aceitar. As leis que estudamos são apenas moldes... e moldes podem ser quebrados.”

“Não se trata de quebrar moldes,” respondeu Json. “Se os destruirmos, o que nos resta? A confusão como método?”

“A dúvida é liberdade,” interrompeu uma das seguidoras. “Todo sistema que promete ordem nos limita. Nós somos os Dissolutos. Rejeitamos o consenso. Rejeitamos a constante.”

O ar entre eles parecia denso. Havia ali uma tensão que não era elétrica, nem magnética — era cognitiva. Um campo gerado pela colisão entre dois tipos de pensamento. E ele era instável.

“Vocês estão brincando com forças que não compreendem,” advertiu Thalia. “Estão redobrando entropia sobre entropia. Vai sair do controle.”

Daryel se aproximou, até quase tocar Json. “Você acha que entende... mas ainda está preso na jaula da lógica. Nós... nós nos libertamos.”

Então, com um gesto invertido, Daryel desenhou um símbolo no ar — era uma fórmula da cinemática, mas seus vetores estavam de cabeça para baixo. A energia da sala oscilou. Objetos caíram. Um campo artificial de negação lógica começou a se formar.

Json soube, naquele instante, que a batalha já havia começado. Não era com espadas. Era com definições. Com significados. Com a própria noção de verdade.

Quando saíram da biblioteca, Json anotou apenas uma frase: “Se o pensamento racha por dentro, nenhum argumento o reconstrói inteiro.”

A fenda estava aberta.