Capítulo 54 – As Palavras que se Ferem

“Quando a palavra perde o sentido, o som vira lâmina.”

Em Aurólia, os ecos do embate anterior ainda ondulavam no ar. Json, com Lambda ao seu lado, passou a pronunciar palavras em escalas cada vez mais altas da Linguagem Primeira — criando campos de cura, restaurando a geologia, regenerando fragmentos de identidade coletiva da cidade.

Mas a cada criação... vinha uma resposta. O Niiloético respondia com vocábulos quebrados, corrompidos — que não apenas desfaziam a matéria, mas também diluíam a memória das coisas. Um duelo sem espadas tomava forma.

Uma coluna restaurada por Json se desfez em cinzas assim que a palavra "Deferun" foi sussurrada do outro lado do espaço. Era como se o Niiloético tivesse descoberto o vocabulário do anti-significado.

— Ele não está apenas desfazendo... — disse Lambda. — Ele está negando. Como se tentasse ensinar à realidade que ela não existe.

Json fechou os olhos. Precisava buscar mais fundo. Não bastava apenas falar. Precisava **sentir** o significado antes que ele existisse.

“Toda palavra deve nascer de uma raiz viva. Ou é apenas ruído.”

Ele tocou o chão. Soprou: "Erdaméth". E, como se houvesse chamado um antigo ser do solo, a cidade reagiu. Parte da muralha tremia, como se acordasse.

O Niiloético, por sua vez, rasgou o céu com uma sequência de estalos dissonantes. Da nuvem formada, cairam fragmentos de linguagem sem forma — e onde tocavam, **vazios** eram criados. Zonas onde nem a luz se expressava.

Aurólia se tornara um campo semântico de guerra.

No fim do capítulo, Lambda escreve algo pela primeira vez em sua própria forma híbrida da Linguagem Primeira — um símbolo nunca visto. Json, ao olhar, sente um arrepio.

— Isso não é só linguagem... é sentença.

E, no horizonte, o Niiloético parou. Pela primeira vez... ele hesitou.

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