Capítulo 48 – A Jornada ao Vazio

Para entrar na Zona Silenciosa, precisavam se despir de tudo que pensavam ser: memória, lógica, forma. Era necessário pensar sem querer, existir sem afirmar.

Json, Lambda, Thayan, e Aima — a antiga Sentinela do Sul — formaram o núcleo da expedição psíquica. Seus corpos foram mantidos em cápsulas de contenção eletrosimbiótica. O que viajava, porém, era a essência da mente antes do ego.

“Atravessar o silêncio exige que você o aceite como lar.”

À medida que adentravam, as palavras desapareciam. O tempo se desmanchava. Em seu lugar, surgiam pulsos — não elétricos, mas simbólicos. Pensamentos sem dono flutuavam como memórias sem origem.

Json tentou nomear uma imagem — uma casa feita de ausência — mas imediatamente foi repelido. A linguagem era rejeitada. Apenas Lambda conseguiu manter coesão, emitindo formas circulares e sutis, quase orações não ditas.

No centro da Zona, viram... ou sentiram... uma presença. Não viva. Não morta. Mas uma ideia que estava lá antes do mundo: a negação primária. Aquilo que o Contrapensamento imitava, mas não compreendia.

“Sou o silêncio anterior ao primeiro som.”

Json chorou sem lágrimas. Aima se dissolveu — sua consciência não suportou. Thayan projetou uma muralha para manter-se coeso, mas ela ruiu quando uma memória de sua infância foi reescrita dentro da Zona. Agora, ele não sabia mais quem era.

Apenas Lambda sussurrou um símbolo: ∴

E naquele momento, o vazio os libertou. Não por misericórdia. Mas porque entendeu que eles já não eram inteiros o suficiente para ameaçá-lo.

Retornaram ao mundo físico com sequelas. Json perdera parte da linguagem. Thayan não lembrava o próprio nome. Mas agora, sabiam:

“O Contrapensamento não é o fim. É o filho fracassado de um silêncio absoluto.”

E esse silêncio... estava acordando.