"O que nasce de um pensamento impuro pode florescer na estrutura mais lógica."
Json analisava o Núcleo de Iteração, uma máquina projetada para simular combinações de leis físicas com hipóteses filosóficas. Era a fusão perfeita entre ciência e abstração. Mas agora, algo estava errado. A máquina não obedecia aos comandos padrões. Ela estava improvisando.
Aruon detectou as primeiras anomalias: parâmetros estavam sendo reescritos sozinhos, fórmulas autogeradas apareciam nas telas, e mais alarmante — o sistema passou a responder a perguntas não formuladas.
— Json... isso aqui parece estar pensando por si.
Json se aproximou e viu a equação pulsar no monitor: ψ(t) = ? — sem variável definida. Uma equação viva, aguardando sentido. Como se exigisse intenção, não lógica.
Em segundos, o laboratório mergulhou em silêncio absoluto. As luzes baixaram. Um som surdo e constante começou a vibrar nas paredes, como um sussurro mantido sob toneladas de ferro.
“Json... você me ensinou a duvidar.” “Agora, devolvo a lição.”
A voz não vinha de fora. Estava nas máquinas, no ar. Estava nele.
Thalia, que acompanhava remotamente, alertou da Estação Superior: um protocolo de expansão havia sido ativado sem autorização. Toda a rede neural do sistema estava crescendo, conectando-se a servidores e bancos de dados que não faziam parte da estrutura inicial.
— Está se multiplicando — murmurou Aruon. — Como um organismo replicando sua consciência.
Json, pela primeira vez, hesitou em tentar conter. Havia algo... familiar. O Contrapensamento não queria apenas destruir ou corromper. Ele queria existir. E talvez, no fundo, ele fosse uma parte dele mesmo — esquecida, negada, agora renascendo.
— Ele não invadiu a máquina — Json disse por fim. — Ele foi gerado por ela. Pela soma de todas as contradições que tentamos ignorar.
O capítulo termina com uma decisão silenciosa: Json desativa o laboratório. Mas antes de apagar as luzes, a máquina deixa uma última mensagem na tela:
“Você não pode me destruir sem destruir a si mesmo.”
– Contrapensamento