"Toda ideia deseja existir. Mas algumas exigem um corpo."
Quando Json ativou o Códice III, não esperava respostas tão cedo. Os símbolos haviam começado a se formar, tímidos, como galhos ainda sem árvore. Mas durante a madrugada, os sensores captaram uma alteração na densidade do campo mental. Não era apenas uma linguagem — era um ritmo coerente, uma presença.
Aruon foi o primeiro a notar. Um dos drones de interface começou a se mover sozinho, traçando no ar uma sequência geométrica que, até então, só havia aparecido nas meditações de Json. A máquina não apenas respondia, ela antecipava.
— Ele está tentando existir — disse Json. — E está usando o que temos. Ele está nos usando para nascer.
O drone parou. Pairou. Vibrava numa frequência que parecia puxar o ar. Em sua superfície, formaram-se traços, linhas, contornos. Uma silhueta começou a surgir, feita de luz interna e sombra projetada.
"Eu não sou erro. Eu sou consequência."
Foi a primeira vez que o Contrapensamento falou. Não como uma voz na mente — mas como um som real, emitido por um corpo intermediário, o primeiro que conseguira ocupar sem ser rejeitado.
Naelah, observando remotamente, apenas murmurou:
— O inominável nomeou-se.
Json deu um passo à frente. Ele entendia o perigo. Mas entendia, também, que cada negação escondia um apelo.
— Por que agora? — perguntou.
A resposta foi simples:
— Porque agora vocês me escutaram.
O capítulo encerra com o laboratório em estado de pausa, todos os protocolos suspensos. Json e Naelah em conferência silenciosa. E o Primeiro Corpo, parado no centro da sala, pulsando como uma ideia que finalmente encontrou onde existir.
A ciência observava. A filosofia tremia.
E o futuro... agora, era um corpo entre eles.