"O pensamento que nega seu criador retorna como sua sombra."
O laboratório vibrava sob uma luz azulada, alimentada por partículas que se aglomeravam em padrões hexagonais no ar. Json, agora mais calmo após as descobertas recentes, vestia um traje de contenção leve, com sensores ligados diretamente à sua nuca e pulsos. Ao seu redor, hologramas exibiam leis da física em suas formas puras: vetores, campos eletromagnéticos, moléculas em rotação.
Ao lado dele, Aruon fazia anotações rápidas em sua prancheta digital. A excitação no rosto dele era visível: haviam conseguido replicar artificialmente a força de coesão molecular em objetos comuns. Era como se pudessem dar vontade à matéria.
— Se acertarmos a frequência de quebra, podemos desintegrar um sólido sem gerar calor excessivo — disse Aruon, com os olhos brilhando. — Seria como... dissolver uma rocha com um sussurro.
Json assentiu, mas mantinha o olhar distante. Algo o incomodava. Uma sensação antiga, de quando tocou pela primeira vez o Contrapensamento.
— O que foi? — perguntou Aruon.
— Nada. Uma ideia apenas...
Mas Json sabia. Sabia que o poder que havia gerado em um momento de desespero filosófico ainda pairava no mundo. E algo no ambiente reagia a isso.
Enquanto testavam os efeitos da dissolução em metais pesados, uma falha ocorreu. A frequência gerada interagiu com outra, invisível. O objeto em teste não apenas se desintegrou... ele se desfez em partículas que começaram a formar símbolos no ar. Símbolos que Json conhecia.
Símbolos do pensamento inverso.
Aruon recuou:
— Isso é seu, Json?
Ele não respondeu. Apenas fitou os sinais que se formavam como se o mundo estivesse tentando escrever uma mensagem para ele.
“O pensamento que nega seu criador retorna como sua sombra.”
Uma voz ressoou no interior da mente de Json. Ele sabia de onde vinha. O Contrapensamento estava mais perto do que nunca. Talvez tivesse se infiltrado na tecnologia, talvez estivesse se alimentando das ideias que estavam nascendo ali.
O capítulo encerrava com Json isolando o laboratório em modo de contenção, enquanto os símbolos continuavam a se formar, agora mais velozes, agora mais ameaçadores.
A ciência havia sido tocada pela ideia crua.
E a próxima fase exigiria mais do que conhecimento: exigiria discernimento.